Entrevista para o Programa Fisioforma

E no dia 24 de maio, logo após o Dia Nacional de combate à Cefaleia, foi ao ar a entrevista que dei para o Programa Fisioforma , sobre a Migrânea (Enxaqueca). Entre os assuntos abordados, herança genética, fatores desencadeantes, opções de tratamentos e, a importância de hábitos saudáveis, dieta e controle de peso no controle da migrânea. A entrevista completa está no link:  https://youtu.be/IF5cBrbHeOI

15th World Congress on Pain (IASP) – continuação

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Muito interessantes são as publicações atuais da IASP (International Association for the Study of Pain) com relação à Medicina Integrativa e o desenvolvimento de um modelo holístico de tratamento da dor, repetidas vezes abordados neste último congresso. Estes são os temas mais citados neste blog e fazem parte da minha rotina diária de orientação aos pacientes.

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Com relação à alimentação, sabe-se que os alimentos industrializados e ricos em açúcar promovem a liberação de insulina, resultando em um estado de hiperinsulinismo que é pró-inflamatório e promotor de um meio propício ao desenvolvimento de Dor Crônica. Assim, uma alimentação saudável, controlada em açúcares e carboidratos, com menos alimentos industrializados e mais frutas e vegetais, seria benéfica ao tratamento da dor. 

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Por outro lado, os exercícios físicos são importantíssimos aos pacientes que desejam se tratar de uma condição dolorosa crônica. Eles estimulam vias inibitórias de dor e a liberação de neurotransmissores analgésicos, como a endorfina, promovendo a melhora e não reincidência dos estados dolorosos. Embora para alguns pacientes, como os fibromiálgicos, os exercícios físicos pareçam causar mais dor no início da prática, a persistência em realizá-los resulta em excelentes resultados para os pacientes sofredores de dor crônica.

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O controle do estresse, através de medidas como terapia cognitivo-comportamental, meditação, yoga ou acupuntura, também é um aliado importante no tratamento da dor crônica.

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Alguns estudos recentes, baseados em Métodos de Condicionamento Pavloviano (aqueles dos ratinhos de laboratório), revelaram que os pacientes com dor crônica podem ser condicionados a uma resposta positiva. Pacientes foram estimulados com pulsos elétricos e posteriormente com estímulo sensorial gelado (que inibe a dor inicial). Neste momento, um estímulo sonoro era colocado junto com o estímulo frio. Com o passar do tempo, o estímulo frio foi retirado e apenas o estímulo sonoro ativado resultava em uma resposta de controle da dor. Estes estudos vêm nos mostrar que a mente humana pode realmente ter um papel importante de controle na dor crônica, sendo que, medidas de controle mental, como terapia cognitivo-comportamental e meditação, podem ser de grande ajuda no tratamento destes pacientes.

E o próximo Congresso Mundial será no Japão…

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Entrevista com paciente

 

Segue abaixo uma entrevista que realizei com a paciente Gislaine Carina Rogério de Oliveira, que após um longo caminho de recuperação, conseguiu ficar livre de sua migrânea crônica (enxaqueca). A mudança de hábitos de vida, alimentação e prática de exercícios físicos, associada a um tratamento direcionado, foi fundamental para a melhora. Solicitei gentilmente que ela desse este depoimento, para exemplificar para todos os pacientes que, em primeiro lugar, é possível melhorar  sua dor crônica, porém, sua participação ativa no tratamento é fundamental.

1) Há quanto tempo você tem enxaqueca?

Tenho enxaqueca desde os 10 anos e convivi com ela nos últimos 24 anos.

2) Quais os tratamentos que já realizou?

Realizei diversos exames e tratamentos utilizando todo tipo de medicamento, realizei também bloqueios e como ultimo recurso o Botox (Toxina Botulínica).

3) Quais foram os melhores resultados?

Os medicamentos tinham uma pequena melhora mas a dor sempre voltava, com os bloqueios passei até 15 dias sem dor, já com Botox obtive um dos melhores resultados passando a ter dor poucas vezes por mês durante uns 5 meses.

4) Como as alterações de hábitos de vida (dieta, exercício físico) influenciaram sua melhora?

A mudança de hábitos alimentares e inclusão de atividade física diária foi a melhor escolha que eu podia ter feito, obtive uma melhora significativa na dor em poucas semanas, mudei radicalmente meus hábitos e decidi praticar atividade física diariamente, frequentando academia, fazendo caminhadas, andando de bicicleta e fazendo musculação. Comecei uma dieta balanceada eliminando todos os itens que me causam dor como por exemplo frituras, chocolates, refrigerantes etc… Passei a me alimentar de 3 em 3 horas e evitar jejum prolongado, tomar muita água e fazer pelo menos 2 horas de atividades diária. Com isso consegui ter qualidade no sono sem necessitar de medicamento diário para dormir, ter muita disposição. Hoje em dia o único medicamento que uso é o Lyrica e raramente tenho um episódio de dor.

Eu não acreditava que pudesse mais viver sem dor, as pessoas precisam se conscientizar que tudo está relacionado com o que comemos e com o modo em que vivemos, enquanto fui sedentária e consumia alimentos de qualquer natureza sem me preocupar com qualidade, quantidade e horários fiquei com muita dor e cada vez mais indisposta e com sono ruim.

5) Como está agora?

Posso dizer que estou ótima, após 6 meses de mudança de hábitos e atividade física constante, minha vida mudou. Tenho consciência que a mudança deve ser permanente, não adianta fazer um tempo e depois parar. Mas quem vai querer voltar a ter dor? Se posso viver sem dor e ter uma vida 100% saudável, vou mesmo me cuidar.

6) Então, é possível melhorar?

Posso afirmar que é possível melhorar, sou a prova disso, basta ter força de vontade, decidir mudar os hábitos alimentares e praticar atividade física, minha vida esta muito melhor tanto corpo como mente.

Alimentos que podem interferir na Enxaqueca

 

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Continuo insistindo no tema “alimentação e dor”…

Percebo com frequência, no consultório, que alguns pacientes que mudaram hábitos de vida e hábitos alimentares, apresentaram melhora importante de suas crises de migrânea (enxaqueca). É claro que a alimentação não é a causa da enxaqueca. Esta, é uma doença de origem genética, com forte influência ambiental e hormonal, especialmente na mulher adulta. Entretanto, associado a uma avaliação médica adequada e ao tratamento medicamentoso, é essencial investir em medidas de mudanças de hábitos. Entre estas medidas, as que parecem exercer maior impacto no tratamento, seriam exercícios físicos regulares e medidas de dieta.

Para exemplificar alguns alimentos que merecem atenção e devem ser evitados:

Cafeína: substância presente no chocolate, no café e em bebidas como chá preto e refrigerantes pode provocar enxaqueca se consumida em excesso. Geralmente, indica-se que o consumo não exceda o equivalente a três pequenas xícaras de café ao dia.

Glutamato monossódico: é um tempero que realça o sabor, comum em produtos industrializados.

Nitritos e nitratos: estão presentes em alimentos como salame, presunto, mortadela e salsicha. Possuem ação vasodilatadora, que pode desencadear a dor.

Aminas: estão presentes em bebidas alcoólicas, como cerveja e vinho (em especial o tinto), queijos maturados, embutidos, molho de soja e carnes defumadas.

Lactose: para algumas pessoas que têm intolerância à essa substância, presente no leite e seus derivados, a enxaqueca pode ser agravada. Não devemos evitar leite e derivados para todas as pessoas com enxaqueca, visto ser um alimento altamente nutritivo.

Frutas cítricas: limão, laranja e abacaxi podem desencadear crises em quem sofre de enxaqueca. O mecanismo parece ter relação com metabolismo do cobre.

 Jejum prolongado: ficar por mais de 3 horas sem se alimentar também pode desencadear dores de cabeça. A hipoglicemia (baixa do açúcar no sangue) seria a deflagadora da dor nestes casos.

Hábitos dietéticos e dor crônica

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Os hábitos dietéticos atuais, que privilegiam alimentos com excesso de sódio, açúcar e gorduras saturadas, têm causado prejuízos importantes na saúde do indivíduo e facilitado o desenvolvimento de doenças crônicas. A Organização Mundial de Saúde publicou dados à respeito em interessante artigo (Diet, nutrition and the prevention of chronic diseases. World Health Organ Tech Rep Ser 2003. 916:1-149).

Com relação à dor crônica os últimos estudos têm enfatizado que uma nutrição adequada é a base de uma boa saúde, além de previnir a dor crônica. Como exemplos, déficits de vitamina B12 e ácido fólico podem desencadear neuropatias dolorosas e o déficit de vitamina D pode desencadear dor osteomuscular. Os estudos mais recentes indicam que inclusão de alimentos que possuam em sua constituição ômega 3, ômega 6, vitamina D e baixa quantidade de poliaminas (presentes em carnes e produtos industrializados) podem auxiliar o tratamento da dor. Por outro lado, alimentos contendo flavonoides (derivados da uva por exemplo), ácido alfa-lipóico (vegetais verdes), antioxidantes e magnésio parecem beneficiar os pacientes com dor crônica mas ainda precisam ser melhor estudados. A cafeína faz um papel dual na gênese da dor crônica. Seu uso em excesso (indica-se maior que 3 xícaras pequenas ao dia) pode estar relacionado à abstinência e cefaleia de rebote. Por outro lado, pequenas quantidades ingeridas podem beneficiar a ação de outras medicações como paracetamol. Muita atenção ao uso de cafeína, que inclusive está também presente em bebidas derivadas da cola e chás!

Estes dados estão no estudo : “Food, pain, and drugs: Does it matter what pain patients eat?” Pain 153 (2012) 1993–1996.